Saia é coisa apenas de mulher?

15 maio

homem de saia

Para mais de 2.500 pessoas confirmadas no evento USP de saia!, não. Esse é o nome da manifestação que acontecerá na próxima quinta-feira na Universidade de São Paulo, USP. A idéia da manifestação surgiu após um estudante da universidade ser alvo de críticas e preconceito por ir às aulas trajando uma saia.

O estudante em questão é Vitor Pereira, de 20 anos, calouro do curso de têxtil e moda da USP. Ele conta que pessoalmente percebeu apenas alguns olhares estranhos e até recebeu elogios, mas depois começaram a chegar xingamentos anônimos na sua conta do Facebook. Depois disso, Vitor resolveu criar a página Homens de saia ,na mesma rede social, para defender a opção de usar saia e divulgar imagens de outros homens que usam a vestimenta ao redor do mundo.

Vítor Pereira: "Me sinto mais confortável usando saia do que um par de calças."

Vitor Pereira: “Me sinto mais confortável usando saia do que um par de calças.”

Para Vitor, a moda transcende os gêneros. Ele acreditava ser essa a opinião da maioria dos estudantes da USP, baseado em pesquisas feitas na própria faculdade. Por isso se surpreendeu com a repercussão negativa do seu ato. “Achei que fosse haver alguns olhares, porque é uma coisa incomum, mas não a ponto de receber ofensa. Sempre tive uma outra visão da USP, de que o pessoal tinha a mente mais aberta”, afirmou Vítor.

Apesar da repercussão ter sido maior agora, Vitor não foi o primeiro na USP a usar saia. Em 2011, o aluno Augusto Paz, de 21 anos, vestiu a peça como parte de uma experiência proposta pela professora da disciplina de sociologia da moda. Para realizar a experiência chamada de teste de desconforto psicológico, o aluno tinha que escolher uma peça de roupa que nunca usaria, ir até a faculdade com ela e observar a reação das pessoas e como ele próprio se sentia.

A primeira saia usada por Augusto, para o teste de desconforto psicológico

A primeira saia usada por Augusto, para o teste de desconforto psicológico

Depois do teste, Augusto resolveu adotar a saia para o seu dia-a-dia. “Acabei descobrindo que  a saia é bem confortável e resolvi comprar outros modelos. Compro minhas saias em brechós, procuro o modelo de kilt (saia masculina típica da Escócia). Fizemos uma pesquisa no ano passado, é muito difícil encontrar saia para homem”, disse o estudante.

Os rapazes vêem muitas vantagens em usar saias. Além de ser uma boa opção para os dias mais quentes, a peça também muda o comportamento e a postura de quem a usa. “É engraçado ver como uma peça de roupa mexe no visual. Até a maneira de andar muda”, afirmou Augusto. “Minha postura tem que ser melhor para não parecer estranho”, explicou Vitor.

Mesmo assim, eles não usam a saia sempre que sentem vontade. O motivo é o medo da violência. Augusto já passou por uma situação constrangedora: em 2012, um aluno da USP tentou tirar uma foto por baixo da sua saia. No primeiro dia em que usou a peça, Vítor recebeu além de olhares, um xingamento do motorista do ônibus que pegou para ir até a faculdade.

Vítor e Augusto na USP (Foto: Flávio Moraes/G1)

Vitor e Augusto na USP (Foto: Flávio Moraes/G1)

A professora da disciplina de história da moda e sociologia da moda da USP, Suzana Avelar, não entende tanta estranheza das pessoas em relação ao assunto. “A saia sempre foi uma vestimenta masculina. Até o Renascentismo, homens e mulheres vestiam as mesmas roupas. Gostaria que as pessoas pensassem a respeito disso”, disse Suzana.

Já o professor de psicologia política e de sociedade, multiculturalismos e direitos  da USP, Alessandro Soares da Silva, não se surpreendeu com a reação negativa das pessoas. Para ele, a nossa sociedade educa para a enfermidade. É criado um sujeito-referência: branco, eurocêntrico, culto, bonito, sem deformidades, heterossexual e pai de filhos, não de filhas. Todas as pessoas diferentes desse sujeito são consideradas inferiores e alvos de preconceito.

Para ele, a atitude de alguns em relação aos meninos é o reflexo disso. “O preconceito aparece nas reações a homens que ocupam espaços que a sociedade quer restringir apenas às mulheres. O primeiro xingamento que se aprende é comparar o homem à mulher, como se ser mulher fosse algo pior. Há que se pensar na igualdade de gênero.”

Quem quiser apoiar esse movimento em favor à igualdade de gênero, pode se juntar ao grupo USP de saia!  e comparecer ao protesto pacífico que irá ocorrer no próximo dia 16 de maio, às 18h, no centro do campus da USP. Os organizadores pedem que os participantes homens saim de casa usando saias e para as mulheres, qualquer outro tipo de transgressão é válida, como gravatas e calças largas. Discussões sobre o assunto também serão travadas no dia.

Outro evento acontecerá no mesmo dia no Centro Acadêmico Armando de Salles, em São Carlos (SP), para apoiar o direito de cada um se vestir como quiser. É o CAASO DE SAIA. Ele já conta com a participação da banda Ponto 50 e com o apoio do conhecido cartunista Laerte Coutinho.

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